23 de set de 2008

"Sonho de Pierrot", M. Del Picchia.

É tão doce sonhar!... A vida , nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra. Ver vaga e espiritual, das cismas nos refolhos, toda uma vida arder na tristeza de uns olhos; não tocar a que se ama e deixar intangida aquela que resume a nossa própria vida, eis o amor, Arlequim , misticismo tristonho, que transforma a mulher na incerteza de um sonho....

- Pierrot, Sonho de Pierrot

Segunda parte do post anterior. Retirado do mesmo local.
Beijos e abraços.

Parte II:


PIERROT
Eu também, Arlequim, nesta vida ilusória, como todos Pierrots, eu tenho uma história, vaga, talvez banal, mas triste como um cântico...

ARLEQUIM, sarcástico:
Não compreendo um Pierrot que não seja romântico, branco como o marfim, magro como um caniço, enchendo o mundo de ais, sem nunca passar disso.

PIERROT
Debochado Arlequim!

ARLEQUIM
Branco Pierrot tristonho...

PIERROT
Teu amor é lascívia!

ARLEQUIM
E o teu amor é sonho...

PIERROT
É tão doce sonhar!... A vida , nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra. Ver vaga e espiritual, das cismas nos refolhos, toda uma vida arder na tristeza de uns olhos; não tocar a que se ama e deixar intangida aquela que resume a nossa própria vida, eis o amor, Arlequim. , misticismo tristonho, que transforma a mulher na incerteza de um sonho....

ARLEQUIM, escarninho:
Esse amor tão sutil que teus nervos reclama só se aplica aos Pierrots?

PIERROT
Não! A todos os que amam! Aos que têm esse dom de encontrar a delícia na intenção da carícia e nunca na carícia...Aos que sabem, como eu, ver que no céu reflete a curva do crescente, um vulto de Pierrette...

ARLEQUIM, zombeteiro:
Eterno sonhador! Tu crês que vive a esmo tudo aquilo que sai de dentro de ti mesmo. Vês, se fitas o céus, garota e seminua, Colombina sentada entre os cornos da lua...Quanta vezes não viste o seu olhar abstrato nos fosfóreos vitrais das pupilas de um gato?

PIERROT
Essas frases cruéis, que mordem como dentes, só mostram, Arlequim, que somos diferentes. Mas minha alma, afinal, é compassiva e boa: não compreendes Pierrot. E Pierrot te perdoa...

ARLEQUIM
Tua história, vai lá! Senta-te nesse banco. Conta-me: “Era uma vez um Pierrot muito branco...” A história de um Pierrot sempre nisso consiste... Começa.

PIERROT narrando:
“Era uma vez... um Pierrot... muito triste... “

Uma voz, na distância, corta, argentina, a narração de Pierrot.

A VOZ
Foi um moço audaz, que vejo
no meu sonho claro e doce,
O amor que primeiro amei..
Abraçou-me: deu-me um beijo
e, depois, lento, afastou-se,
e nunca mais o encontrei.

Num ser pálido e doente
resume-se o que consiste
o segundo amor que amei.
Ele olhou-me tristemente...
Eu olhei-o muito triste...
E nunca mais o encontrei!

Esse amor deu-me o desejo
daquele beijo encontrar.
Mas nunca, reunidas, vejo,
a volúpia desse beijo,
e a tristeza desse olhar...

A voz agoniza nos ecos. Pierrot e Arlequim tendem o ouvido procurando no ar mais uma estrofe.

ARLEQUIM
Essa voz...

PIERROT
Essa voz...

ARLEQUIM
Só de ouvi-la estremeço...

PIERROT
Eu conheço essa voz!

ARLEQUIM
Essa voz eu conheço...

Um sopro de brisa arrepia as plantas.

PIERROT
Escuta...

ARLEQUIM
Escuta...

PIERROT
Ouviste?

ARLEQUIM
Um sussurro...

PIERROT
Um lamento...

ARLEQUIM
Foi o vento talvez.

PIERROT
Sim. Talvez fosse o vento.

ARLEQUIM
Conta a história, Pierrot.

Pierrot continuando:

Numa noite divina, como tu, num jardim, encontrei Colombina. Loira como um trigal e branca como a lua.

ARLEQUIM
Era loira também?

PIERROT
Tão loira como a tua... Eu descera ao jardim quebrado de fadiga. Dançavam no salão...

ARLEQUIM, interrompendo:
... uma pavana antiga, e notaste ao luar a cabeleira crespa...

PIERROT
... a anca em forma de lira...

ARLEQUIM
... e a cintura de vespa!

PIERROT
Mãos mimosas, liriais...

ARLEQUIM
Em minúcias te expandes!

PIERROT
Um pé muito pequeno...

ARLEQUIM
Uns olhos muito grandes! Uma mulher igual à que encontrei na vida?

PIERROT, ofendido:
Enganas-te, Arlequim, nem mesmo parecida!
Era tal a expressão do seu olhar profundo, que não pode existir outro igual neste mundo! Felinamente ardia a íris verdoenga e dúbia, como o sinistro olhar de uma pantera núbia.

Esses olhos fatais lembravam traiçoeiras feras, armando ardis nos fojos das olheiras! Tão vivos que, Arlequim, desvairado, os supus duas bocas de treva e erguer brados de luz! Tripudiavam o bem e o mal nos seus refolhos.

ARLEQUIM, cismando:
Essas coisas também ardiam nos seus olhos...

PIERROT
Tive medo, Arlequim! Vendo-os, num paroxismo eu tinha a sensação de estar sobre um abismo. Não sei porque o olhar dessa estranha criatura era cheio de horror...e cheio de doçura! Eu desejava arder nessas chamas inquietas...

ARLEQUIM
Tendo o fim dos Pierrots?

PIERROT
Tendo o fim dos Poetas!
Aconcheguei-me dela, a alma vibrante louca, o coração batendo...

ARLEQUIM
E beijaste-lhe a boca.

PIERROT, cismarento:
Não...Para que beijar? Para que ver, tristonho, no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho... Beijo dado, Arlequim, tem amargos ressábios...
Sempre o beijo melhor é o que fica nos lábios, esse beijo que morre assim como um gemido, sem ter a sensação brutal de ser colhido...

ARLEQUIM
E que disse a mulher?

PIERROT
Suspirou de desejo...

ARLEQUIM , mordaz:
Preferia, bem vês, que lhe desses um beijo!

PIERROT
Não. Ela olhou-me. Olhei...
E vi que, comovida, sentiu que, nesse olhar, eu punha a minha vida...


Um silêncio cheio de angústias vagas. Sob o luar claro as almas brancas dos Lírios evocam fantasmas de emoções mortas. Os spectros das memórias parecem recolher, como numa urna invisível, a saudade romântica de Pierrot...


ARLEQUIM, tristonho:
Essa história, Pierrot, é um pouco merencória...

PIERROT
A história desse olhar é toda a minha história.

ARLEQUIM
E não a viste mais?

PIERROT
Nem sei mesmo se existe...

ARLEQUIM, contendo o riso:
É de fazer chorar! Tudo isso é muito triste!

Tomando-o pelo braço, confidencialmente:
Entretanto, ouve aqui, à guisa de consolo: diante dessa mulher...foste um Pierrot bem tolo! Aprende, sonhador! Quando surgir o ensejo, entre um beijo e um olhar, prefere sempre um beijo!

PIERROT, desconsolado:
Lamentas-me Arlequim?

ARLEQUIM
Tu não compreendeste: choro não ter colhido o beijo que perdeste.



Menotti Del Picchia (Máscaras - Parte I), retirado de Álbum de Recortes do Brasil
Arte: Picasso (encontrada no mesmo site).