21 de ago de 2008

"Beijo de Arlequim", M. Del Picchia.

Ingênuo! A mulher bela adora quem lhe diz tudo o que é lindo nela. Ousa tudo, porque todo o homem enamorado se arrepende, afinal, de não ter tudo ousado.

- Arlequim, Beijo de Arlequim




Encontrei esse texto nas navegações por essa web infinita. Gostei dele, então resolvi postar. Espero que o autor não se zangue (não consegui mandar recado), mas no final do texto, tem o link de onde tirei.

Beijos e abraços.


Parte I:

O crescente cintila como uma cimitarra. Lírios longos, grandes mãos brancas estendidas para o luar, bracejam nas pontas das hastes. Uma balaustrada. Uma bandurra. Um Arlequim. Um Pierrot E, sobre as máscaras e os lírios, a volúpia da noite, cheia de arrepios e de aromas.

ARLEQUIM diz:
Foi assim: deslumbrava a fidalga beleza da turba nos salões da Senhora Duquesa. Um cravo, em tom menor, numa voz quase humana, tecia o madrigal de uma antiga pavana. Eu descera ao jardim. Cheirava a heliotrópio e vi, como quem vê num vago sonho de ópio, uma loura mulher...

PIERROT
Loura?

ARLEQUIM
Como as espigas...
Como os raios de sol e as moedas antigas...Notei-lhe, sob o luar, a cabeleira crespa, anca em forma de lira e a cintura de vespa, um cravo no listão que o seio lhe bifurca, pezinhos de mousmé, olhos grandes, de turca... A boca, onde o sorriso era como uma abelha, recendia tal qual uma rosa vermelha.

PIERROT
Falaste-lhe?

ARLEQUIM
Falei...

PIERROT
E a voz?

ARLEQUIM
Vaga e fugace.
Tinha a voz de uma flor, se acaso a flor falasse...

PIERROT
E depois?

ARLEQUIM
Eu fiquei, sob a noite estrelada, decidido a ousar tudo e não ousando nada...Vinha dela, pelo ar, espiritualizado numa onda volúpia, um cheiro de pecado...Tinha a fascinação satânica, envolvente, que tem por um batráquio o olhar duma serpente... e fiquei, mudo e só, deslumbrado e tristonho, sentindo que era real o que eu julgava um sonho! Em redor o jardim recendia. Umas poucas tulipas cor de sangue, abertas como bocas, pela voz do perfume insinuavam perfídias...

Tremia de pudor a carne das orquídeas... Os lírios senhoreais, esbeltos como galgos, abriram para o céu cinco dedos fidalgos fugindo à mão floral do cálix longo e fino. Um repuxo cantava assim como um violino e, orquestrando pelo ar as harmonias rotas, desmanchava-se em sons, ao desfazer-se em gotas! Entre a noite e a mulher, eu trêmulo hesitava: se a noite seduzia, a mulher deslumbrava!
Dei uns passos.
Ao ruído agitou-se assustada. Viu-me...

PIERROT
E ela que fez?

ARLEQUIM
Deu uma gargalhada.

PIERROT
Por que?

ARLEQUIM
Sei lá! Mulher...Talvez porque ela achasse ridículo Arlequim com ar de Lovelace...
Aconcheguei-me mais: "Deus a guarde, Senhora!"
- Obrigada. Quem és?
- "Um arlequim que a adora!"

Vinha do seio dela, entre a renda e a miçanga, um cheiro de mulher e um cheiro de cananga. Eram os olhos seus, sob a fronte alva e breve, como dois astros de ouro a arder num céu de neve. Mordia, por não rir, o lábio úmido e langue, vermelho como um corte inda vertendo sangue...E falei-lhe de amor...

PIERROT
E ela?

ARLEQUIM
Ficou calada...
Meu amor disse tudo, ela não disse nada, mas ouviu , com prazer, a frase que renova no amor que é sempre velho, a emoção sempre nova!

PIERROT
Que lhe disseste enfim?

ARLEQUIM
O ardor do meu desejo, a glória de arrancar dos seus lábios um beijo, a volúpia infernal dos seus olhos devassos, o prazer de a estreitar , nervoso, nos meus braços, de sentir a lascívia heril dos seus meneios, esmagar no meu peito a carne dos seus seios!

PIERROT, assustado:
Tu ousaste demais...

ARLEQUIM, cínico:
Ingênuo! A mulher bela
adora quem lhe diz tudo o que é lindo nela. Ousa tudo, porque todo o homem enamorado se arrepende, afinal, de não ter tudo ousado.

PIERROT
E ela?

ARLEQUIM
Vinha pelo ar, dos zéfiros no adejo, um perfume de amor lascivo como um beijo, como se o mundo em flor vibrasse, quente e vivo, no erotismo triunfal de um amor coletivo!

PIERROT, fremindo:
E ela?

ARLEQUIM
Ansiando, ouviu toda essa paixão louca, levantou-se...

PIERROT
Depois?

ARLEQUIM , triunfante:
Deu-me um beijo na boca!

Um silêncio cheio de frêmito. Os lírios tremem. Pierrot olha o crescente. Arlequim dá um passo, vê a brandura, toma-a entre as mãos nervosas e magras e tange, distraído, as cordas que gemem.


ARLEQUIM
Linda viola.

PIERROT, alheado:
Bom som...

ARLEQUIM
Que musicais surpresas não encerra a mudez
destas cordas retesas...

Confidencial a Pierrot:
Olha: penso, Pierrot, que não existe em suma, entre a viola e a mulher, diferença nenhuma. Questão de dedilhar, com certa audácia e calma, numa...estas cordas de aço, e na outra...as cordas d'alma!

Suavemente, exaltando-se:
O beijo da mulher! Ó sinfonia louca da sonata que o amor improvisa na boca... No contado do lábio, onde a emoção acorda, sentir outro vibrar, como vibra uma corda... À vaga orquestração da frase que sussurra ver um corpo fremir tal qual uma bandurra...Desfalecer ouvindo a música que canta no gemido de amor que morre na garganta...Colar o lábio ardente à flor de um seio lindo, ir aos poucos subindo...ir aos poucos subindo...até alcançar a boca e escutar, num arquejo, o universo parar na síncope de um beijo!
.......................................................................................
Eis toda a arte de amar! Eis, Pierrot fantasista, a suprema criação da minha alma de artista. Compreendes?

PIERROT, ansiado:
E a mulher?

ARLEQUIM, lugubremente:
A mulher? É verdade...
Levou naquele beijo a minha mocidade.

PIERROT
E agora? Onde ela está?

ARLEQUIM, ironicamente místico:
No meu lábio, no ardor desse beijo, que é todo um romance de amor!

Seduzido pela angústia da saudade:
No temor de pedi-lo e na glória de tê-lo...
No gozo de prová-lo e na dor de perdê-lo...
No contato desfeito e no rumor já mudo...
No prazer que passou... Nesse nada que é tudo:
O passado!... a lembrança... a saudade... o desejo...

Balbuciando:
Um jardim... Um repuxo...Uma mulher... Um beijo....

(Longo silêncio cheio de evocação e de cismas).

PIERROT, ingenuamente:
É audaciosa demais a tua história...

ARLEQUIM, ríspido:
Enfim, um Arlequim, Pierrot, é sempre um Arlequim. Toda história de amor só presta se tiver, como ponto final, um beijo de mulher!


Menotti Del Picchia (Máscaras - Parte I), retirado de Álbum de Recortes do Brasil
Arte: Picasso (encontrada no mesmo site).

18 de ago de 2008

Espólios de guerra

O Mestiço observava cuidadosamente, com seu próprio arco encordoado, preparado com uma flecha. [...] voltou[ando] sua atenção para a torre escura[...], respirou profundamente e forçou sua visão, como fizera tantas vezes antes em suas viagens até chegar a Orian. Pôde sentir cada mínimo centímetro da batalha, cada folha da grama que balançava na suave brisa que viajava entre os homens da luta. Ele viu a pedra, viu os detalhes dela e viu, dentro da torre, o homem com o manto se mover para a esquerda, ao mesmo tempo que o vento se dirigia para a mesma direção. Então, trazendo seu arco para a esquerda soltou a corda que vibrou arremessando a flecha no ar. A flecha traçou uma pequena curva, sobrevoando os soldados da infantaria, que nem chegaram a notá-la, e invadiu a torre. Dentro dela o homem, percebendo em reflexo que a flecha vinha em sua direção, moveu-se para esquerda, exatamente como na visão de Tillian. E exatamente como ele desejava a flecha atingiu o peito do homem, fazendo o recuar alguns passos para trás devido a potência do tiro.

- O Início da Eternidade




Nossa... citação meio longa, no início do post.... tentei reduzir, mas não deu... hehehe. Bem, acho essa descrição, se não me engano a primeira descrição de tiro feita por Tillian, na história. ^^

Ficou muito boa. Um belo exemplo do poder mágico de "pré-cognição" élfico, no cenário de campanha do Ewerton.

Segue agora, um trecho de "O Início da Eternidade"...
Mais precisamente quando o exército oryano consegue retormar sua cidade das mãos do povo bárbaro de Raw.

Sim, dessa vez eu usurpei o texto todo. Que culpa tenho se o Ewerton escreve bem? ^^

Êta saudades desse personagem... ^^
Escrevam o que digo: vou voltar a usá-lo, senão como PC, ao menos como NPC.

Agora, espero que aproveita a transcrição do Ewerton para momentos ocorridos na campanha para um livro delicioso (que o #%$#&* não termina de escrever nunca!!!)

Enjoy.

o/

[...]
O bando de Tyllian, que estava acompanhando Loykas com seu bando de mercenários armados com espadas e escudos, conseguiu entrar em um das casas e declararam serem suas. Um homem pulou e tentou golpear um arqueiro com um tipo de foice, mas este desvio e chutou-lhe o estômago, fazendo o desmaiar em meio a uma poça de sangue que havia vomitado.

A mulher deste, em cima da escada, parecia extremamente fria e apenas disse a bom som que ela não resistiria e jogou uma pequena sacola de couro com moedas. Os homens ávidos pegaram-na e entregaram para Tyllian. [...]

Duas jovens olharam sobre os ombros da mãe e os homens ficaram novamente agitados, querendo saltar sobre as escadas para pega-las.

- Deixem minhas filhas em paz, seu crápulas, contentem-se com o que já pegaram – gritou a mulher, e teria sido atacada por um dos homens se o Mestiço, Joryan e Ras, não tivessem se adiantado e bloqueado o caminho com seus corpos.

- Ninguém vai fazer nada contra essas mulheres – brandiu o capitão e os outros dois que o ajudavam sacaram suas espadas.

O resto dos homens do bando ficaram ressentidos, mas evitaram quaisquer outra ameaça as mulheres. Bem sabiam qual era a punição de traidores e, mesmo que talvez pudessem matar seu capitão e esconder seu corpo, três seriam bem mais difíceis.

Tyllian girou seu pé, enquanto sua retaguarda era vigiada por Ras e Joryan, que ainda sustentavam sua espada, intimidando o resto do grupo, e pediu desculpas a mulher. Ela agradeceu e fez uma mesura desajeitada, junto com suas filhas que saíram de trás delas, agora, depois do perigo passado.

- Ei! Capitão, o senhor sabe contar? – perguntou Ras, tocando-lhe as costas duas vezes com o cabo da espada.

- É lógico que sei, por quê pergunta?! – disse, intrigado.

Ras virou-se, junto com Joryan, e eles ficaram, um ao lado do outro, na mesma linha, na direção das três mulheres. Elas sorriram, e eles, mais ainda.

[...]

Na casa ele entrou tentando fazer o mínimo de barulho mas as dobradiças rangeram de tal modo que qualquer um que tivesse sono leve teria acordado facilmente. E só Evenes, a filha mais madura das mulheres da casa, que ainda assim não passava dos dezesseis anos, tinha sono leve.

Ela esperou o jovem arqueiro entrar em seu quarto e tirar suas botas para balbuciar algo avisando que estava acordado. Tyllian sorriu sem graça e beijou a garota:

- Desculpe por tê-la acordado.

- Não se preocupe, fiquei esperando você, mas como demorou acabei ficando sonolenta e vim dormir aqui – o quarto ficava no segundo andar, que se alongava por um pedaço da rua e uma de suas janelas mostrava a parede de uma outra casa.

Evenes era pequena, cabelos negros curtos que lhe caíam um pouco nas bochechas brancas. Os olhos eram negros também, mas Tyllian, toda vez que olhava mais atento notava algo de cinza lá no fundo deles, dando um brilho diferente de outras mulheres. Ela mais parecia uma boneca de pano feita com esmero de tão delicada.

Sua pele não tinha marca alguma de doença e pouquíssima marca do sol, tendo em vista que só trabalhara mesmo com seu pai, que fazia sapatos. Não parecera em nenhum momento ter se entristecido com a morte dele, apesar de rezar sempre na igreja por algo que Tyllian não sabia exatamente mais desconfiava.

Quantas privações ela tinha passado pelo pai? Ele não queria imaginar para não odiar o velho morto. E quando em algumas vezes fora atrás dela na igreja, ela parecia rezar com fervor como se estivesse em pecado. E ele pensou que talvez ela ficara até mesmo feliz com a morte do pai. Mas era tão delicada que tentava afastar esse pensamento e, quando estava em sua presença, sua beleza singela fazia com que isso fosse fácil.

- Toda vez que eu venho aqui me pergunto – começou a falar o arqueiro mas fez uma pausa longa para arregaçar as mangas de sua camisa. – se você está feliz com essa situação.

Ela pareceu assustada, e quase derrubou a vela que começara a acender assim que o Mestiço tirara sus botas.

- Por quê pergunta isso?

- Você não diz nada, nunca. – respondeu ele virando p’ra ela e olhando seu rosto, iluminado fracamente pela chama.

- Eu prefiro aceitar... – disse ela parecendo hesitante.

- Só assim, aceitar? Nada mais? – Tyllian parecia triste, achara por um momento que talvez ela tivesse gostado dele. Mas, pelo que ela acabara de dizer, só tinha aceitado a situação. Isso era tenebroso p’ra ele. Sua mãe não havia se casado com seu pai, na verdade, ela era amante dele.

[...]

A despeito da ajuda do pai, que sempre os visitara mas sempre deixara claro que eram bastardos, Tyllian teve de aprender as duras custas que sua vida seria como de outro plebeu qualquer. Uma vez, quando já tinha idade suficiente para entender a situação da sua mãe, que ainda recebia em casa Sir Edward, interpelou a mãe sobre se ela gostava do que estava acontecendo. Ela simplesmente olhou para o filho, deixando a sopa esquentando no forno de lenha e disse:

- Não gosto ou desgosto, apenas aceito.

E ele odiou aquela resposta porque aprendera em suas viagens a não aceitar a sua situação e a mudar, mesmo que não pudesse se tornar um nobre, seria algo importante. E agora ele ouvia da jovem praticamente a mesma frase da mãe. E novamente sentira aquela horrível sensação.

- Não sei porque você está preocupado com isso – disse Evynes.

- Por quê aceita? – ele não conseguia se conformar.

- Eu gosto de você Tyllian – respondeu sorrindo a pequena jovem – gosto mesmo, mas ainda sinto algo esquisito.

- O que? – perguntou impaciente

- Por mais que você tenha sido gentil, tenha protegido eu e minha família... mas, eu ainda sinto... – e fez uma pequena pausa que foi acompanhada por um olhar lânguido do arqueiro.

- Diga de uma vez, por favor Evynes, não me torture mais.

- Ainda me sinto como um espólio de guerra – e aquela frase martelou o Mestiço de uma forma que ele nunca sentira antes. Mais do que um golpe de espada. Ele se sentira perfurado pela verdade. E talvez, no íntimo, ele também sabia que era provável que aquela frase sairia também da boca de sua mãe, que nunca teve coragem para dizer.

Os nobres vem e pegam o que querem, como espólios de sua própria existência. E ele veio e pegou o que queria, não forçou nada, mas que outro destino a jovem poderia escolher além de se deitar com ele? Piores, possivelmente.

- Desculpe. – disse ele sem jeito.

- Não precisa se desculpar, vamos dormir agora. – e logo depois de dizer isso beijou-lhe ternamente e dormiram abraçados.

Ele ainda ficou algum tempo olhando para o teto, pensando em tudo. Agora ele era o líder de bando maior de arqueiros, e isso havia feito crescer em sua alma um grande desejo de grandeza, que sempre carregara. Mas agora havia outra ambição, conquistar o amor da jovem que ele convivia.

- Vou conseguir – jurou a si mesmo enquanto assoprava a vela fazendo o quarto ser tomado pelo breu da noite.

[...]